terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

Henrique Carvalho Ghidetti


Não era para ser Micael, a verdadeira escolha partira de sua mãe e mãe alguma pensaria num nome desses para o próprio filho, ao menos assim pensava aquela mãe. Deveras, não uma mãe amorosa. O que um dia aflorou daqueles amantíssimos, embora nada criativos, lábios maternos foi uma altiva anglofonia, Michael. Nada de Miguel, até parece, ia agora seu filho ter nome de personagem de piada, como Joaquim, como Manuel.

É bom dizer que a pobre estava longe de supor que Michael e Miguel fossem variações de um mesmo nome, sinônimos, digamos assim. É bem provável, no entanto, que tal conhecimento em nada viesse a abalar seu propósito. O verdadeiro problema é que ela estava cheia da profusão de antônios, joões, josés e pedros a seu redor. Abominava o insípido Maria que lhe impingiram no registro, seguido, ainda por cima, daquela praga, José, mais monótono impossível, dois nomes tão disseminados, de uso tão corrente, que já nem pareciam próprios, muito mal serviam para distinguir alguém, não prestavam mais para indicar um ser determinado, senão que meramente para assinalar uma certa categoria de indivíduos virtualmente inominados, um gênero cujos espécimes, para se particularizarem, necessitavam da agregação, a seus designativos, de essenciais acréscimos que, não raro, a bem dizer quase sempre, acabavam por constituir-se em jocosos apelidos, como João Padeiro, Zé da Cotinha, Maria Lavadeira e outros.

Cedo na vida, ainda na escola, Maria José percebeu seu destino ao deparar-se com uma infinidade de homônimas, as quais, porém, costumavam ter a sorte de trazer junto um outro nome menos vulgar, como Maria Clara, Maria Rita, Maria Neide ou Sandra Maria. Isso já era bem melhor que sua sina de Maria José. As outras podiam ser Clara, Neide, Rita ou Sandra. Seguindo esse modelo, ela se tornaria Zé. Melhor continuar Maria.

Se, sob um aspecto, os bancos escolares ilustraram a desventura de Maria José, sob outro serviram para revelar-lhe a maravilha dos nomes estrangeiros, ou que tal se reputavam, tais como Greissy, Ericky, Anderson, Washington, Kelly, Kellen, Keylla, Sheyla, Dayelly, Nathalye e aquela descoberta avassaladora, Michael, amor à primeira vista, ou melhor, à primeira, perdoem a má palavra, oitiva. Não pensem que Maria José apaixonou-se pela pessoa desse Michael, seu colega de classe, cuja cara esqueceu tão logo o ano letivo acabou, de jeito nenhum, o que ficou em sua mente foi o nome, que penetrou-lhe a alma como um sopro, fazendo-a levá-lo para casa e guardá-lo sob uma redoma de cristal. Protegida entre quatro paredes, perdia-se em contemplações plenas de fascínio, pronunciava o nome com inúmeras entonações, imaginando-lhe todas as formas possíveis até que chegou à definitiva, Myckaell, a mais exótica que pôde conceber, com duas letras estranhas a nosso alfabeto e uma duplicada. Prometeu um dia dar à luz um pimpolho e chamá-lo assim: Myckaell.

O tempo passou, mas não o propósito da pequena Maria José, agora uma mulher adulta que acaba de pôr um filho no mundo.

Tudo preparado para o batismo. Finalmente, a realização do sonho, Myckaell passaria a ter existência oficial. Era o que parecia, até que o marido se ergueu e rogou à mulher para pelo menos manter a grafia inglesa original do nome, Michael, e permitir que a seu lado fosse inserido um irrisório Marcos, tão ao gosto do genitor, que, apesar disso, inclusive comprometeu-se a só chamar o filho de Michael, desde que se cumprissem aquelas duas condiçõezinhas. A conversa não era nova, porém nunca fora tão insistente e inoportuna. Inoportuna do ponto de vista exclusivo de Maria José, pois, salvo ela, todos os outros parentes, de ambos os lados, assumiram apenas duas posições: ou ficaram neutros, ou se puseram a favor do marido. Ninguém, absolutamente ninguém, compadeceu-se da mãe abandonada. Acuada e contrafeita que só, ela se viu obrigada a transigir, o que fez, porém não sem antes exigir que o segundo nome se grafasse Marcus, a fim de preservar algo da exótica elegância alienígena de sua idéia original.

Poupado do peculiar Myckaell, o pequeno foi certificado, e ninguém se deu ao trabalho de verificar como ficou o assentamento. Os pais receberam sua certidão, dobraram-na e a enfiaram no bolso sem ao menos olhá-la. Todos foram em paz para casa. Micael Marcus, suposto Michael Marcus, passou a ser tratado como Michael pela mãe e como Marquinhos pelo pai e esposo sem palavra, o restante dos familiares tendendo a apoiar a facção com que tivesse parentesco. Entretanto, havia um lado bem mais aguerrido que o outro nessa disputa, e era natural que, com o tempo, esse lado mais aguerrido, que era a mãe, vencesse. Foi o que aconteceu. No fim das contas, todos, até o pai, chamavam Micael de Michael.

Durante uns bons anos de sua infância, ele foi inconteste o pequeno Michael, a exalar um inconfundível aroma de afinidade onomástica com famosos como George Michael, Michael Caine, Michael Douglas, Michael Jackson, Michael Jordan, Michael York, proporcionando à que o trouxe ao mundo a inefável sensação de saciedade pelo suposto cumprimento de uma grande meta.

Talvez seja a fatalidade, efeito necessário do caos cotidiano, talvez apenas a leviandade de deus, que ileso assiste aos encontros e aos desencontros deste mundo, futilmente especulando porque a salvo dos respingos. Seja como for, ironicamente ocorreu que, assim como o castelo se erigiu alicerçado na primeira chamada escolar de uma menina, na primeira chamada escolar do filho dessa menina ele desabou, fragorosamente. A professora, ao fazer a chamada no primeiro dia de aula da vida de Michael, chamou-o de Micael, pronunciando o nome segundo a fonética da língua portuguesa.

Só então descobriu-se o erro havido no registro civil do menino. Até aquela data, ninguém nunca se preocupara em conferir a certidão de nascimento, nem na hora de sua entrega, nem em nenhuma outra ocasião posterior. Da parte materna, isso talvez se explicasse pela lassidão proveniente da satisfação do velho desejo. Da parte do pai, que inclusive mandou cópias do papel ao serviço de assistência médica e social patrocinado por seu empregador, a negligência provavelmente resultasse do fato de que a ele, pai, acima de tudo importava ver a boca daquela mulher calada, qualquer que fosse o meio, ele só queria que a monocórdia cantilena a respeito do nome do filho cessasse, o que foi alcançado no dia do registro civil, era o bastante, desde então ele não quis nem saber de olhar para aquela certidão de nascimento.

Para Maria José, as mudanças impostas pelo marido na última hora antes do registro não chegaram a prejudicar a essência de seu sonho. Apesar de Michael não ser exatamente como Myckaell, ainda assim os dois nomes tinham o mesmo som, e o Marcus, vindo em seguida, até que caiu bem. Sucedeu, portanto, que, depois do batismo, dissipou-se a ansiedade, a passagem dos dias resgatou a calma soterrada pelos abalos da sôfrega expectativa, toda a inquietude de uma existência parecia afinal morta e enterrada até que, na primeira matrícula escolar do garoto, usaram-se as informações de sua certidão de nascimento, sendo o nome transcrito para a lista de chamada na forma constante do documento. Tudo ficou claro quando a professora pronunciou aquela monstruosidade em sala e Michael, ou melhor, Micael, veio para casa e contou a novidade. Como uma paisagem devastada por descomunal hecatombe, Maria José, tão logo teve certeza do fato, sentiu tudo desabar dentro de si, prostrou-se em ruínas para nunca mais se reerguer. É verdade que ela ainda comentou com o marido, depois de infinitamente acusá-lo pelo erro, sobre a possibilidade de constituírem um advogado para providenciar em juízo a retificação do registro, mas algo dentro de si extinguiu-se em definitivo, depois disso Maria José nunca mais tocou naquele assunto, o que fez seu marido dar graças aos céus, enquanto ela acomodava seu desapontamento nos amplos recintos da frustração. Tudo ficou como estava: Michael era Micael e ela, uma amargurada.

Nesse meio tempo, Micael foi crescendo, ajeitando-se nos espaços que o mundo lhe permitia, buscando um modo de ser, moldando-se numa aparência cuja maior bandeira era aquele peculiar nome que, não à toa, ele julgava tão seu e do qual até passaria a gostar. Do seu ponto de vista, tudo se dera da maneira mais súbita, bem assim, ao entrar na escola ele descobriu ser outro, pronto, um tal de Micael que, disseram-lhe, ele sempre fora, e todos ao seu redor começaram a tratá-lo assim. Todos, menos sua mãe.

O olhar e a conduta de Maria José em relação ao filho mudaram brutalmente, embaçaram-se, por assim dizer. Ela agia como um autômato. A percepção do menino sobre o assunto foi mais ou menos essa, só que não tão consciente. Ele era muito novo, não tinha uma vivência emocional que o esclarecesse sobre os inábeis artifícios que a maioria de nós usa para fugir dos problemas, nada dizendo que signifique sim ou não, tudo trazendo embrulhado em camadas de talvez e de ressalvas. Criança não sabe confiar desconfiando. Sendo assim, embora a mãe nunca mais o olhasse diretamente nos olhos e evitasse beijá-lo, além de não chamá-lo mais por nome algum, nem Michael, nem Micael, nem Marcus, a ele se referindo apenas como garoto, menino ou meu filho, apesar disso tudo, quando ele dela indagava por que o vinha tratando com tanta frieza, ela objetava, dizendo ser mera impressão do menino. Ele então silenciava por fora e travava uma intensa batalha interior para convencer-se de que ali se encontrava a transparência da verdade, odiando-se por nunca eliminar totalmente os redutos revoltosos, sabendo que os remanescentes iriam reunir-se, adquirir novas forças e empreender uma nova investida contra a pétrea afirmativa reiterada à exaustão pela genitora, que um dia, já esgotada de tanto repetir a mesma coisa, lascou uma bofetada na cara do filho, ordenando-lhe que parasse de atormentá-la com dúvidas sobre os sentimentos que lhe dedicava.

Com os dedos maternos ainda a arderem-lhe na face, Micael entendeu enfim que a mentira sempre seria uma só, podendo, entretanto, apresentar-se sob as mais variadas formas, o mais das vezes como toscas dissimulações. A surpresa de Micael completou-se quando seu pai, que vivia a lamuriar-se por causa do distanciamento da mulher, veio repreender o filho por ficar perturbando a mãe com perguntas insistentes e inconvenientes, ou vice-versa. Os adultos mentiam, muito, descaradamente, foi talvez a primeira grande descoberta sobre a vida em sociedade feita pelo pequeno, da qual, porém, ele só teria consciência bem depois.

Como na infância de qualquer mortal, os fatos ocorriam e nele deixavam impressões que praticamente não se detinham no filtro da razão, ingressavam sem controle de procedência ou de conteúdo e arquivavam-se aparentemente a esmo nos lugares mais fundos da alma, tornando-se os fundamentos de seu caráter. Desse ponto de vista, a alteração de nome proporcionou a Micael determinadas experiências algo precoces, ou melhor, demasiado insólitas, tão além de seu poder de entendimento que não lhe deram oportunidade de sequer formular dúvidas, o que deixou marcada bem dentro de si uma indelével e indizível sensação, expressão de suas mais graves angústias e refúgio de suas maiores hesitações, sua carapaça, seu abrigo indestrutível.

Quase tudo no mundo era sem gosto para Micael, ou tudo, pois era quase impossível para uma emoção alcançar as funduras do ser em que ele se escondera, até mesmo de si. A falta de sabor convenceu-o de que ele não tinha sentimentos. Aceitava as coisas sem saber muito bem por quê, também ignorando o porquê de recusá-las. Não gostava da escola, mas também dela não desgostava a ponto de negligenciá-la. Não comia jiló, quiabo e rabanete por prazer, considerava-os intragáveis, mas não queria atormentar-se com seus juízos. Assistia a qualquer coisa na televisão por achar muito difícil discernir entre bom e mau. Às vezes até destruía objetos que amava, ou pensava que amava, só para provar sua excelência na arte de ignorar-se. Tudo isso, claro, sempre era feito sem uma clara noção de seu porquê.

Para defender-se na vida, Micael mostrava o que não sentia e sentia o que não mostrava, algo como um mestre do disfarce. Além disso, ele se revelou pessoa de raciocínio vivaz, tendo sido capaz de acumular razoável bagagem cultural e de satisfazer certas ambições de grandeza, chamadas por alguns de ganância desmedida. O fato: antes mesmo de concluir seu curso superior, o rapaz já abrira caminho para uma lucrativa, ou melhor, para uma ilustre carreira política, pela qual ele chegaria às mais elevadas funções, sempre ligado ao seleto círculo das eminências pardas da nação, os verdadeiros reis da cocada, deuses que, embora eventualmente até ocupem cargos visíveis, costumam sentir-se bem mais à vontade atuando por trás da cena montada para entreter a ralé, lá, onde a negociação, ainda que envolta em códigos complexos e indecifráveis, na verdade é direta e clara, sem evocações de pudores cívicos e coisas do gênero, onde uma meia verdade é a verdade mais sincera que se pode alcançar, onde Micael se sentiu estimulado pelo permanente desafio a suas habilidades miméticas e onde ele, com seus bons serviços, angariou a estima e a confiança dos veneráveis.

Somente numa ocasião aquele modo de ser quase causou uma crise de consciência em Micael. Foi quando ele conheceu uma certa mulher, que nada lhe pedia mas que ele sabia merecer tudo, e, mais que tudo, a verdade. Quando isso aconteceu, Micael tentou despir-se de todos os seus disfarces, arrancando-os um por um e sucessivamente encontrando um outro por baixo. Isso foi se repetindo até haver uma revelação, até ele compreender que não sabia, que nunca soubera se havia algo além dos disfarces, algo como uma espécie de estátua imutável, parada no meio de si, preservando um ser hipotético do turbilhão da vida.

Se acaso Micael tivesse pendores filosóficos, isso talvez lhe rendesse um tema para meditar por décadas. Micael, porém, era um prático, buscava resultados, convenceu-se de que sua natureza era mesmo aquela, cambiante, e de que era com ela que ele teria de viver, ponto final. Se isso não bastasse, também valeria lembrar do talento com que ele lidava com seu caráter camaleônico.

A mulher que nele despertara a crise do autoconhecimento, além de especial, tinha a virtude adicional de ser filha de um poderoso líder político. Seria a união do útil com o agradável. Casaram.

Não demorou muito para nascer o primeiro filho, cujo nome, ao ser pronunciado na cerimônia do batizado, causou um ataque na amarga Maria José, que caiu de borco sobre a pia batismal, para espanto de todos. Vinha ao mundo mais um José Maria.

28.5.99

Um comentário:

DIARIOS IONAH disse...

SIMPLESMENTE ADOREI!